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12/09/2017
Uma família na era digital
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            Aqui em casa a gente só se fala pelo celular. A afirmação é de    uma estudante, 18 anos, classe média de São Paulo. Ela esclarece, aqui em casa, só nos encontramos para o jantar e nem sempre. Depois cada um vai para o seu canto. Até nossas brigas acontecem pelo aplicativo. É muito melhor, pelo menos não tem gritaria no barraco virtual e ninguém fica interrompendo. Para o bem e para o mal, pertenço a uma família virtual.  Quando canso, desligo para ter um pouco de paz.
            Este fenômeno tem vantagens e desvantagens. Filhos que viajam continuam em contato permanente com os pais. As fotografias, com direito a selfies, completam a informação. Outra vantagem: a rapidez. Em vez de deixar o próprio conforto e ir pedir um chá na cozinha, é só mandar uma mensagem. Infelizmente, alguém tem de preparar o chá e ir levá-lo. O celular evita a desculpa: não ouvi, na hora de lavar a louça. Uma desvantagem, na ótica, dos filhos: o celular permite à mãe estar na cola o tempo inteiro... desconectar? Impensável. Seria como deixar de ver, ouvir ou respirar.
            O celular também funciona entre os esposos. São mensagens curtas, executivas, impessoais. Até mesmo o tradicional: te amo sugere um amor distante, apenas racional.
A tecnologia nos aproxima de quem está longe e nos afasta de quem está perto. E os que estão perto acabam cada vez mais distantes.
            Ninguém duvida da utilidade do celular e dos diversos aplicativos. Mas eles acabam fazendo rombos enormes no lado afetivo. A amor familiar e gratuito precisa ser realimentado se numa poupança só sacamos, em breve diminui e fica a descoberto.
            O saudoso Padre Charboneau, um apóstolo da família, falava no dever de sentar-se.  O namoro e noivado são cheios de confidências. Há diálogos intermináveis, porque tudo merece ser partilhado, porque a cumplicidade e o amor tornam importantes todos os fatos
         Sentar lado a lado, olhar-se nos olhos, faz parte da maturidade, que deve crescer sempre.  O celular ajuda os personagens a esconder-se. É mais fácil, dizer a verdade e ferir, na frieza do celular.
            É verdade que a palavra pode ferir, assim como o silêncio provocativo fere. Mas ela tem um valor medicinal, quando usada com sabedoria. No passado, falava-se de uma noite sem televisão. Hoje se tornam necessários dias - ou noites - sem celular. Caso isto não aconteça, teremos amigos e amigas em todo o mundo, mas não mais reconheceremos o marido, a esposa, os filhos.  Muitas definições servem para o amor, mas ele não pode ser virtual. E nem a família pode ser virtual.
Frei Aldo Colombo.